06/02/2019 as 14:30

Morte solitária! Deixem o Sr. Lourival ser enterrado em paz!

Consciência e (R)Existência, por Linda Brasil

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
Foto: (Transfeminismo).<?php echo $paginatitulo ?>

Nesse último domingo, 03/02/2019, a TV Globo, no programa Fantástico, veiculou uma matéria altamente transfóbica e desrespeitosa sobre o Sr. Lourival, criminalizando sua vivência e deslegitimando sua vida.

Lourival Bezerra de Sá, 78 anos, um homem trans que há 50 anos vivia socialmente com a identidade masculina, faleceu em casa no dia 5 outubro de 2018 e até agora não foi sepultado. Ninguém próximo a ele sabia de sua identidade de gênero. Sua condição de pessoa trans só foi descoberta depois de sua morte solitária e agora toda a mídia brasileira tenta deslegitimar sua identidade. Na sua época, essa era a única forma para vivenciar sua verdadeira identidade de gênero: assumir uma nova identidade e viver sua transgeneridade sem que ninguém soubesse.

Há 15 anos, desde 29 de janeiro de 2014, data que comemoramos o Dia Nacional da Visibilidade Trans, o movimento trans vem denunciando as violências e exclusões sociais das pessoas trans no Brasil. Realizando vários debates e atividades, como o ocorrido na semana passada na V Semana da Visibilidade Trans de Aracaju, com intuito de conscientizar os órgãos públicos e privados, a mídia e a sociedade em geral sobre os desrespeitos, as atrocidades e os dados alarmantes relacionados  às pessoas trans. Sobre isso, indico a leitura do nosso texto da semana passada aqui na Coluna.

Além da lastimável e desrespeitosa abordagem da matéria do Fantástico, o médico e a delegada entrevistados demonstraram total ignorância! E pior: uma transfobia institucional comum nos profissionais de saúde e de segurança pública. Mesmo com tantas intervenções e trabalhos de conscientização nessas instituições, esses profissionais ainda se comportam de forma irresponsável quando o assunto é o sentimento humano.

Essa atitude por parte dos meios de comunicação e desses profissionais só contribui para aumentar a violência e o estigma que a sociedade tem em relação as existências das pessoas trans.

Também fui pesquisar outras matérias na internet sobre essa história e percebi que todas as reportagens tratam o caso de forma transfóbica, falando que o Sr. Lourival era uma farsa, uma mulher que vivia enganando as pessoas. Como se viver de acordo com o que realmente se sente fosse algo errado.

Seu Lourival é um homem trans, não era uma mulher e para sobreviver numa sociedade transfóbica e violenta em sua época precisou se esconder toda uma vida para ser feliz da forma como realmente se percebia, como um homem.

Hoje, as pessoas trans podem retificar o nome e gênero diretamente em seus cartórios de registro, mas na sua época isso era impossível, obrigando-o a usar uma nova identidade, como o ocorrido com João W. Nery, que também viveu com uma documentação nova e, depois de 30 anos, revelou sua verdadeira identidade através do seu livro “Viagem Solitária”. Imagine a dor e o sofrimento do Sr. Lourival e de João Nery por viverem tantos anos sem poder dizer e expor publicamente suas histórias.

Chegou a hora do movimento trans começar a entrar com processos judiciais contra essas instituições. Não dá mais para aceitar tanta violência. Esse tipo de abordagem do assunto na imprensa aumenta a marginalização dessa população. Essas matérias passam para a sociedade a imagem de que a pessoas trans é uma mentira, uma farsa, que precisa ser investigada sobre os motivos da transição, como se assumir sua verdadeira identidade de gênero fosse um crime. Infelizmente, isso só contribui para aumentar o sofrimento, a exclusão e os assassinatos das pessoas trans.

Essa discussão é urgente, não podemos deixar que essas posturas preconceituosas se mantenham, criminalizando e deslegitimando nossas vivências. O Brasil é o país que mais executa a população trans, na maioria das vezes com requintes de crueldade, pois para a sociedade somos uma farsa e dessa forma temos de ser eliminados/as.

É lastimável perceber a resistência dessas instituições em nos tratarem da forma que vivemos socialmente, respeitando nossa identidade de gênero, mesmo com normas que já garantem nosso direito de retificar os documentos. Até quando vamos sofrer duas mortes, uma física e outra moral, cometidas pelos meios de comunicação e por profissionais que deveriam ter um mínimo de consciência e respeito à diversidade e a nossa singularidade? 

Por favor, deixem o Sr. Lourival ser enterrado em paz! Ele é um homem trans e não uma mulher! Vamos pensar e agir fora das caixinhas que aprisionam e violentam tantas pessoas.




Tópicos Recentes