16/02/2018 as 12:49

“Nem cegos, nem surdos, nem mudos”

Sem aspas Por Alex Nascimento

Sem Aspas

Politica
Por Alex Nascimento
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Há quem insista em afirmar que os brasileiros são um bando de otários, e alienados politicamente, que sofrem todo tipo de esculacho ao longo do ano para durante os dias de Carnaval viver como se o país não estivesse na pior. Em partetalvez isto seja mesmo verdade. Mas cada vez mais os brasileiros dão demonstrações de que cansaram e de que já não são “nem cegos, nem surdos, nem mudos”, metaforicamente falando. O próprio Carnaval, inclusive, de hámuito também serve para provocar consciências. 

Em 1989, por exemplo, a escola de samba Beija-Flor, do grande Joãosinho Trinta,a mesma que se consagrou campeã agora em 2018, causou delírio e “hipnotizou” parte do Brasil quando fez do lixo seu enredo e produziu um espetáculo histórico na Sapucaí. É até hoje emblemática a alegoria “Ratos e urubus, larguem minha fantasia!”, sem falar no Cristo Mendigo que teve que “desfilar” coberto na avenida, por determinação judicial, até que alguns componentes da escola arrancaram o plástico preto que cobria a escultura e assim revelaram a impactante frase: “Mesmo proibido, olhai por nós”.

O Carnaval do Brasil revela o país com viseira, e também o pais sem viseira. O Brasil com viseira é este composto por uma elite política que insiste em tratar a nação como o velho país de patriarcas, de patrimonialistas. Este cada vez mais perde sua máscara ao ter revelado esquemas e malas cheias de dinheiro. Já o Brasil que segue em frente, e que também se revela no Carnaval, não é mais o “alheio” à realidade.  Além de críticas sociais, atualiza debates em torno de questões como gênero, diversidade, intolerância, respeito, ética.

Há quem insista que os brasileiros sejam um bando de otários e alienados. Se assim for, não é porque cai na gandaia durante quatro dias de festas. É porque, apesar de não mais ser nem cego, nem surdo, nem mudo ainda convive com bandidos que, ao dominarem as estruturas de comando do país, insistem em travar um Brasil que quer ser grande. Maior que qualquer alegoria possível!

Ao propor o enredo Monstro É Aquele que Não Sabe Amar – Os Filhos Abandonados da Pátria que os Pariu, a escola Beija Flor fez um paralelo perfeito entre a obra Frankenstein, de Mary Shelley, que está completando dois séculos, e a história do Brasil. Mas um novo Brasil, aparentemente, cada vez que se impor! Oxalá assim faça já nas eleições de 2018.

 A velha política e o cavalo na chuva

Agora que o ano começou pra valer, muitos pré-candidatos terão que “adequar” suas pretensões de candidatura. Agora chegou a hora de montar no “cavalo selado” ou tira-lo da chuva. É o caso, por exemplo, de Rogério Carvalho (PT), Pastor Heleno (PRB) e mesmo André Moura, considerando as pretensões, e alguns outros nomes que não podem ficar a vida toda a chutar o pé da porta a dizer “deixa eu entrar”. Passado o Carnaval, como se sabe, o funil aperta e as decisões precisam ser colocadas à mesa. O muito que foi tramado, o muito que foi especulado e os inúmeros balões de ensaio se defrontarão com a realidade de impossibilidades. O tempo do blefe, finalmente, chega ao fim!

 Retiro longe do bico de sinuca

Há alguns pré-candidatos que estão de pinote para outras siglas e mesmo outros projetos. Pouco provável venha a acontecer saltos bruscos da parte de aliados do governo do estado. O grupo está cada vez mais sólido, multiplicou-se em presença durante todo o Carnaval. Os pinotes mais prováveis virão do lado da oposição. Esta, tanto insistiu na tese da “unidade”, uma unidade que muitos especulam nunca tenha de fato existido, que acabou por criar embaraços diversos e por revelar justamente o que talvez mais tenha desejado de fato esconder, especialmente nos últimos meses: que a tal unidade não existe.

 Belivaldo com armas de Jorge

Tanto que um de seus líderes, o senador Eduardo Amorim, optou por fazer um “retiro espiritual” durante o Carnaval. Fez a escolha certa e compreensível. Por certo, apurou o fôlego de que vai precisar frente ao imenso desafio, maior que os caminhos de Compostela, que ele e o restante da oposição terão que é o de continuar unidos, nesta hora de bater o martelo em relação a quem vai ser o que nas eleições. Será ele candidato ao governo? Será André? E Valadares, finalmente, vai pra que? E mais, vencida a trilha das vaidade e chegadas as decisões, terão todos um desafio ainda maior: encarar um Belivaldo Chagas cada vez mais “vestido com as roupas e as armas de Jorge”, cada vez mais ungido à medida que se aproxima a hora de sentar na cadeira de governador.

 Sem candidato por baixo do pano

É claro que tem gente que é paga para espalhar boatos e fazer especulações. Na pior da hipótese, o nome do arrolado precisa perder tempo para negar especulações que, nesta fase do jogo da política, tem lá seu peso e certa conveniência em matéria de estratégia. Uma das maiores especulações é quanto se há ou não uma aliança branca entre o governo e André Moura. Quem a coloca por terra é o vice-governador Belivaldo Chagas (MDB) e pré-candidato ao governo do estado. Segundo ele, a única aliança branca será no sentido da transparência, “sem negócio de candidato por baixo do pano”. Assim seja!

 Do vereador Bittencourt I

O vereador líder do governo municipal, e pré-candidato a deputado estadual Antônio Bittencourt, entrou em contato com a Sem Aspas alguns minutos após a publicação da última edição da Coluna. “Tenho dito coisas muito parecidas na imprensa”, declarou o vereador. A Sem Aspas trouxe uma análise da relação pragmática entre Edvaldo Nogueira e André Moura e o quanto esta relação tem beneficiado a cidade e fortalecido o perfil de liderança do prefeito. Segue o linkhttp://maisalo.com.br/colunista/2018/02/12081/o-comunista-de-araque-e-o-mercador-de-votos.html

 Do vereador Bittencourt II

“Repetiria quase tudo que você falou”, afirmou o vereador Bittencourt.Com o título “O comunista (de araque) e o mercador de votos”, a última Sem Aspas da semana passada tratou do “aparente” absurdo que é imaginar um apoio de Edvaldo Nogueira à reeleição de André Moura: “boa fase do comunista (de araque, claro, como de araque são todos os comunistas nestes tempos vazio de discurso) deve-se em parte aos esforços e flexibilidade políticas pessoais dele. A referida parceria é prova maior e mais madura disto”.

 Não, deveria ser não

O Carnaval 2018 foi marcado por campanhas e protestos. Uma delas pedia o fim do assédio no Carnaval. Para se ter uma ideia da importância deste tipo de ação basta ver os dados. Entre 2016 e 2017, os casos de violência sexual contra mulheres aumentaram 88%, segundo registros da Central de Atendimento à Mulher (Disque 180). Uma das campanhas que se destacou no carnaval deste ano foi a #AconteceuNoCarnaval.

 #AconteceuNoCarnaval

Com o fim da folia, os organizadores agora vão produzir um relatório que servirá para pressionar o Poder Público por políticas de prevenção e de combate à cultura de assédio no Carnaval. Quem quiser ainda pode enviar seu relato pelo whatsapp: (81) 99140-5869, de forma anônima. A iniciativa partiu de quatro organizações sociais: Rede Meu Recife, Mete a Colher, Women Friendly e Minha Sampa.  “Cantada pode, assédio não. Olhar pode, constranger não. Na boa pode, à força não”. Agora é esperar o relatório.

 Violência contra a mulher no Carnaval

O Ligue 180 registrou, no Carnaval do ano passado 2.132 agressões a mulheres em todo o pais. A violência física foi responsável por 1.136 casos, seguida de violência psicológica, com 671 ligações, depois a violência sexual, com 109 denúncia. Em um ano, houve um aumento 87,93%.

 “Mulher solteira na folia não pode reclamar de cantada”

Em 2016, o Instituto Data Popular fez uma pesquisa durante o Carnaval e o resultado revelou que 61% dos homens pensam que mulher solteira na folia não pode reclamar de cantada. A rapaziada leva seu machismo pra folia, tanto que 49% dos rapazes afirmaram que bloco de rua não é lugar para “mulher direita”. Pode um troço deste?!

 Feminicídio ostentado

Voltemos ao nosso umbigo. Em Sergipe, na semana que antecedeu ao Carnaval, mulher é assassinada por ex-marido no local em que trabalhava.  Dentre os mais constantes argumentos na tentativa de compreender a violência contra a mulher estão os velhos patriarcalismo e machismo. Estes claro persistem, mas não são mais capazes de “interpretar”, ou já não são mais suficientes para “explicar” os casos constantes de feminicídios. Há outras questões, estas mais contemporâneas que, misturadas a antigos padrões, terminam por engrossar o cauda de violência que faz do Brasil o quinto colocado em agressão contra as mulheres. Sergipe registrou, até meados do ano passado, 2.800 denúncias de violência contra a mulher.

     I. Ostentação e morte

Rodovia dos Náufragos. Dias antes do início do carnaval. Três amigos são perseguidos no veículo em que estavam. Dois jovens em uma moto disparam cinco tiros contra eles. Uma das balas pegou no carona do banco da frente. Faleceu! As outras três ficaram alojadas no interior do veículo e uma atravessa o braço do jovem motorista. Por sorte, alojou-se próximo ao coração, não tendo este sido atingido. Ao conversar com este colunista, no dia mesmo do ocorrido, o jovem “com a bala no peito” narra que estava em um festa particular no Mosqueiro e que durante ela, em síntese, ostentaram! “Só o som do porta-malas de meu carro vale uns R$15.000.00”, afirma o jovem com o braço na tipoia. O dono do veículo acredita que os bandidos também estavam na festa: “festa particular, mas a dona perdeu o controle, esta coisa de um convidado convida outro, que convida outro...”

A mãe do jovem entra na sala em que ele e este colunista conversam, no hospital Gabriel Soares. Já se passaram mais de 10 horas entre o tiro e o desabafo que faz ao Sem Aspas: “agora estou mais calma. Queríamos ter certeza da localização da bala. Mas isto é tudo uma loucura”.  Seu filho não corre nem mesmo perigo de vir a ter movimentos do braço comprometidos. “Mas a bala, nós não vamos retira-la”, informa o médico. Drama maior vivem os pais “do carona do banco da frente”, do outro lado da cidade, no hospital João Alves Filho, para onde fora levado pelo amigo enquanto “sangrava pelo buraco da bala”. “Certamente os marginais também estavam na festa. A sorte é que meu carro tem um dispositivo que o deixa turbinado. Apertei o botão e fui a quase 180km para o João Alves. Não fosse isto e eu também estaria morto. Chegou com vida, mas não resistiu”, conta.

Este colunista deixa claro que defende o direito de quem quer que seja comportar-se da maneira que bem desejar. Dentro da lei, claro. Ao narrar o presente caso objetiva reforçar a necessidade e o compromisso que sobretudo pais e educadores devem tem em fazer um contraponto aos valores alimentados pela chamada cultura da ostentação. Nestes tempos de tão profundas contradições, tempo em que a vida vale nada, o bom mesmo é educar para a discrição. Viver com uma bala apontada para o peito é tragédia menor, e particular, comparada à “tragédia coletiva” que a chamada cultura de massa provoca na atual geração de jovens. É preciso construir outras referências. A cultura da ostentação custa caro – vidas, sobretudo – ao tempo em que revela a profundeza de nossa desigualdade social e subdesenvolvimento civilizatório – além de ser lamentável esteticamente. 

 O buraco da ostentação é mais embaixo

Ao abrirem o porta-malas de seus veículos, um gesto simples e reproduzido por milhões de jovens em todo o Brasil, seus proprietários muitas vezes acabam se expondo à cobiça e são “marcados” por bandidos. Certamente que escolher a maneira como quer e gosta de se divertir é uma questão que envolve livre arbítrio, diz respeito às garantias individuais do cidadão, o que inclui segurança pública. Mas, para além destas questões, a cultura da ostentação causa, em nações com abismos sociais iguais ao Brasil, um tremendo estrago, talvez tão grande quanto o estrago causado pela corrupção – também essa, por aqui, uma consequência daquela. O sujeito rouba, desvia milhões da saúde pública e da educação para poder estacionar um carro de trezentos mil na garagem. Pouco importa venha a desmoralização pública! O que é a desmoralização pública?!

 Educar os filhos

Há certamente o problema da segurança pública e claro que inúmeros fatores devem ser analisados tanto com relação à política de segurança, quanto em relação a valores que, institucionalizados globalmente, em nações iguais ao Brasil ganham por vezes contornos cruéis, quer particular quer coletivamente. Enquanto o ideal de sociedade não vinga, seja ele qual for, talvez os pais e as escolas possam domar um pouco este “espírito de porco da globalização” junto a seus filhos e alunos.

 Pais deslumbrados, filhos tolos

O problema é que muitos pais e professores, de tal forma também estão cada vez mais também afundados nesta mesma lógica cultural que terminam sendo, por vezes, os responsáveis por reforçarem, junto aos seus rebentos e alunos, o sentimento de que são “mais e melhores” porque consomem mais que a maioria dos brasileiros. E assim retroalimentam um elitismo social que também responde por muitos dos crimes praticados no país. Afinal, sabe com quem você está falando?!

 A entrevista de Pitter

O Senac vem realizando um projeto bacana e que tem movimentado a produção amadora de curtas-metragens entre estudantes. O Curso Senac Pleno acontece desde 2013. Os alunos matriculados tem a oportunidade de conhecer um pouco do mundo das artes, especialmente a cinematográfico, além de adquirir noções sobre como planeja, organizar e executar uma produção audiovisual. Também ficam por dentro de como elaborar roteiros, figurinos e técnicas de direção de fotografia e de cena. Um dos curtas de 2017 que tem chamado atenção é A Entrevista de Pitter, cujo roteiro é assinado pela sempre gentil e talentosa Jucy Rocha. No próximo mês serão entregues as premiações do Curso Pleno do ano passado. Vale conferir.

 Com Aspas

     I. “Eu sou um homem que coloca a liberdade acima do pão”. Nelson Rodrigues

    II. “O Carnaval está morto pra burro. E o que mata o Carnaval é o impudor. Antigamente, quando havia pudor, o Carnaval era a festa mais  erótica do mundo. Hoje, o pudor é um anacronismo intolerável. E, então, o Carnaval está morto”. Nelson Rodrigues.

    III. "Oh pátria amada, por onde andarás? Seus filhos já não aguentam mais!". Beija-Flor de Nilópolis

 

Críticas e sugestões alex.semaspas@gmail.com

Telefone – (79) 988494713




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