14/03/2018 as 11:14

Todos precisam de discurso perfeito

Sem aspas Por Alex Nascimento

Sem Aspas

Politica
Por Alex Nascimento
Foto: (sagazan by AdIgnorantiam)<?php echo $paginatitulo ?>

Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulhagem ideológica”. Geneton Moraes Neto, jornalista e escritor.

 

Todos precisam de discurso perfeito

Saber vestir o terno (discurso) perfeito, empostar a voz que interessa, “captar como um poeta” parte dos sentimentos do povo, modular emoções, dizer do não óbvio ou mesmo do óbvio como se gênio fosse e, o mais importante, alimentar sonhos e esperanças em centenas e milhares de pessoas que inevitavelmente precisam acreditar em algo ou em alguém já não mais se constituem em qualidades indispensáveis ao poder!

A quase “extinção” de bons oradores no âmbito da política nacional contemporânea, e não apenas a de grandes líderes, tem uma de suas explicações no fim dos “atrativos” e caros comícios, época em que multidões se aglomeravam para ouvir o seu político de predileção. A memória nacional registra oradores talentosos e não é preciso ir a um Rui Barbosa, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras (1897) e delegado do Brasil na II Conferência da Paz, em Haia (Holanda, 1907), que resultou no epíteto “Águia de Haia”.

Pegue-se, sem se importar com a ordem temporal, nomes como do ex-governador da Guanabara, o oportunista Carlos Lacerda, por exemplo, o inimigo declarado do ex-presidente Getúlio Vargas - este também, aliás, um orador que sabia seduzir as massas; diga-se de figuras públicas importantes para a história nacional como Paulo Brossard, que marcou o Senado da República antes de se tornar ministro do Supremo Tribunal Federal nos anos 70 e de um Alfredo Nasser, outro que foi senador e também ministro, neste caso da Justiça. No Brasil, a política maltrata a língua, empobrece discurso, quebra uma “tradição de há séculos”. Basta pesquisar.

Cada um a seu modo, com repercussão nacional ou local, em conjunturas distintas e distantes temporalmente, estas e tantos outras personalidades da história política nacional souberam vestir o terno perfeito das palavras com que se apresentavam e com as quais eram capazes de alimentar esperanças, instigar a compreensão de realidades e compreender saídas para problemas diversos.

Este colunista foi visitar, na tarde de ontem, o memorial em homenagem ao ex-governador Marcelo Déda, inaugurado no último domingo, 11, dia em que os ex-governador de Sergipe completaria 58 anos de idade. Erguido no Parque governador Augusto Franco (Parque da Sementeira), um desses privilégios urbanos que civilizam qualquer cidade. Orador de bom tutano, fora-lhe feita uma justa homenagem.

O palanque de rua deu lugar aos palanques televisivo e digital, um palanque por vezes bastante empobrecido, mas fausto em recursos e estratégias. Nestes, no entanto, mais do nunca, todos precisam do “discurso perfeito”.

 

Déda e os mares navegados I

 “Se ao longo da história não tivesse havido homens bravios, homens destemidos, capazes e com coragem de enfrentar os mares nunca dantes navegados, homens capazes de se lançar na aventura de descobrir novos mundos, e nós não estaríamos presentes aqui, na noite de hoje, para clamar por um novo tempo na política do Brasil e de Sergipe”. Este colunista acompanhou alguns discursos memoráveis da política recente brasileira e alguns deles, em parte, ainda ecoam na memória, como o proferido pelo ex-governador Marcelo Déda, em 2006, durante lançamento de sua candidatura ao governo do estado. Déda, que sabia vestir o terno (discurso) perfeito para cada circunstância, empostou a voz que interessava, modulou as emoções na medida certa, disse do óbvio e do não tão óbvio, e clamou a que o povo promovesse o que ele chamava de “mudança, mudança, mudança”.

 

Déda e os mares navegados II

Certamente que este colunista não há de lembrar, ipsis litteris - ou seja, com as mesmas palavras e frases - mas o conteúdo “era mais ou menos” o escrito acima e o que segue: “cada homem e cada mulher que se encontra nesta avenida, cada companheira e cada companheiro que neste momento me ouve há, de maneira destemida, de enfrentar os desafios dos mares tenebrosos da velha política, os desafios dos mares tenebrosos do conservadorismo e como bravos navegantes ajudar a construir um novo tempo, um novo ciclo, a clamar por mudança, mudança, mudança”. Claro que muita coisa mudou com Déda e desde Déda. A geração, parte maior dela, “que com ele começou” continua junta e se constitui na base governista atual. Um "velho parceiro”, o vice-governador Belivaldo Chagas, será o próximo da relação pessoal de confiança de Déda a assumir o cargo. Ele, que não poupava elogios aos seus vices, certamente ficaria feliz com a homenagem a ele prestada com o Memorial, como também ficaria feliz em ver o Largo da Gente Sergipana, por ele idealizado.

 

O Largo engrandece I

Dizem que Sergipe é o país do forró. Sergipe é o pais do folclore, o pais da diversidade cultural! No entanto, apesar de ser considerado por motivos o estado com o maior número de manifestações culturais do Brasil e o quarto mais importante do país neste quesito, tais manifestações costumam a ser olhadas com certo, digamos, desmerecimento. O que o Largo da Gente Sergipana faz – e este colunista particularmente gostos do que viu – foi colocar no coração da cidade a grandeza simbólica de sua gente. Há quem, claro, faça comentários politiqueiros, comentários baratos sobre o que quer que seja e assim dirão da obra do Largo da Gente Sergipana.

 

O Largo engrandece II

É bom, é bom demais na verdade. É mesmo até de emocionar ver símbolos importantes da cultura do povo sergipano erguidos, altos, elevados à condição de devida grandeza, numa espécie de reconhecimento daquilo de que é feito o povo deste estado. O Largo da Gente Sergipana lembrará a todos os que por lá passarem, diariamente, de qual matéria esta gente sergipana se fez. As esculturas, como quem numa concentração para sair em caminhada pela cidade, dizem a seu povo a sua origem e reafirmam a importância das tradições culturais. O Largo já provocou um debate sobre a identidade cultural dos sergipanos mais que qualquer festival ou encontro cultural foi capaz de provocar nos últimos anos. Bingo!

 

O Largo engrandece III

Claro que alguns, no afã do agrado político ou em atendimento à politiquices, ocuparam as mídias sociais nestes últimos dias a questionar a relevância do Largo da Gente Sergipana, sua prioridade ou não, ou valor da obra etc. Claro que tais questionamentos devem sempre ser feitos. Mas como diz o povo, “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”. Um é provocar o debate, é questionar prioridades. Outra, e bem diferente, é querer manipular a opinião pública dizendo da obra um monte de bobagens e mesmo querendo desmerece a grandeza que ela representa. A obra certamente é de valor incalculável. Claro que há muito o que se debater sobre política de cultura. Há, claro, muito o que se debater sobre prioridades em matéria de investimentos. Mas deixem a cultura fora disto! Porque, toda vez que que se faz algo por ela, é pelo povo que se estar fazendo. É dela que tudo o mais se concretiza, com o tempo...

 

Amorim de narrativa pronta

O senador Eduardo Amorim (PSC) é considerado um dos mais influentes parlamentares na internet e nas redes sociais, segundo o ranking publicado pela Pesquisa Medialogue Político Digital 2016. Se por um lado não é um grande orador, sabe do terreno onde pisa. Em conversa com à Coluna Sem Aspas, há já alguns dias, este colunista quis saber o que senador pensa, digamos, para além da política paroquiana. Ao ser questiona, por exemplo, se era um homem de direita ou de centro, a resposta dada não encontra amparo nos manuais do pensamento político, mas tem poder apelativo e força discursiva: “sou um franciscano”, afirma.  O senador estar de narrativa pronta para a disputa eleitoral.

 

Amorim de discurso pronto

À quase todos os questionamentos deste colunista, o que o senador mais revela é habilidade de comunicação, inclusive de “condução” de entrevista. Amorim retorna sempre ao ponto de partida: o discurso da ética, da coerência, da sensibilidade e da competência. De suas qualidades diz “quase que sem querer” delas de tanta discrição, quase humildemente. Já com relação, por exemplo, ao desgaste da classe política nacional, fala dos políticos o que a maioria destes e também os brasileiros dizem: “muitos utilizam de todos os expedientes, todos os instrumentos para chegar ao poder. E isto sem se importar se o que foi dito é tudo verdade ou não. Não importa se a promessa feita vai se concretizar ou não. Então, eu acho que muito do desgaste se deva à falta de princípios”.

 

Amorim de crítica pronta

Ao falar sobre o governo do estado, Eduardo Amorim afirma estar preparado para disputar o governo e, caso eleito, preparado para governa-lo. “A gente sabe das dificuldades, das mazelas vividas hoje pelos sergipanos e que nunca foram vividas nessa intensidade”. Diz também que há um “estrago sendo feito” e que as consequências serão graves e sentidas por no mínimo três ou quatro gerações”. Neste caso sem modesta, afirma estudar os problemas do estado e que a prova do que diz são os empréstimos adquiridos pelo governo nos últimos anos, os quais, segundo o senador, não melhoraram a vida dos sergipanos. “Sergipe saiu de uma dívida em 2008 de R$ 829 milhões, e estamos aí perto de uma dívida de quase 7 bilhões, até onde eu consegui descobrir”.

 

Fábio e Dória I

O ex-prefeito de Socorro Fábio Henrique não é nenhum neófito na política. Fábio vai esticando ainda mais suas possibilidades e o conforto de poder olhar sem agonias o cenário atual. Roda e vira há alguma especulação de que seu nome pode vir a ser vice em alguma chapa. Seu lastro como ex-prefeito de Socorro e o pé que mantem em São Cristóvão, com seu irmão como vice-prefeito, Fábio é certamente um nome que agregar força a qualquer projeto. Um movimento discreto e curioso do ex-prefeito, por exemplo, tem sido o de filiar o advogado Márcio Dória ao PDT. Procurado por um bocado de siglas, Dória se por um lado é novo na política, por outro é um profissional respeitado e querido, e não apenas por entre seus pares. Advogado trabalhista, é grande a inserção de Dória junto aos sindicatos.

 

Fábio e Dória II

Dória vai assumir a Fundação Leonel Brizola e promete fazer um bom trabalho à frente da instituição. O curioso é que ele é pré-candidato à deputado federal. Ao ser questionado com relação ao fato de Fábio também ser pré-candidato à federal, Dória tranquilamente responde: “eu vou me apresentar à sociedade. Quem não me conhece vai passar a me conhecer. À partir do momento que me filei ao PDT, passo a ser um aliado de Fábio e ele pode contar comigo. O PDT precisa eleger um federal e seguir sua trajetória de luta em defesa do trabalhador e de valores éticos. Levo para o PDT minha autonomia e princípios. Faremos política de maneira verdadeiramente diferente. E não apenas no discurso!”

 

Sobre o Largo

A professora Aglaé D’Ávila Fontes e a historiadora Josevanda Mendonça Franco, assinam a pesquisa de conteúdo e produção textual e também foram responsáveis pela escolha das manifestações culturais esculturadas pelos artistas plásticos Félix Sampaio e Tatti Moreno.

 

Com Aspas

I. “A obra é tão grandiosa e valorosa, dialoga com nosso povo e nossas raízes, que falar em valor é uma falta de visão e compromisso com a história do sergipano. O Governo investiu R$ 2 milhões e a outra parte veio do Instituto Banese que possui recursos destinados à cultura, que não podem ser usados em outras áreas. Na época de Déda, o Instituto Banese fez o Museu da Gente, e agora conosco, fez o Largo”. Governador Jackson Barreto

II. “Cultura é o que fica depois de se esquecer tudo o que foi aprendido”.  André Maurois

III. “A arte representa valores do espírito”  Francisco Brennand



“Críticas e sugestões alex.semaspas@gmail.com

(79) 988494713

 




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