21/07/2018 as 09:30

“E agora, José?!

Sem aspas Por Alex Nascimento “Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulhagem ideológica”. Geneton Moraes Neto, jornalista e escritor.

Sem Aspas

Politica
Por Alex Nascimento
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Quer na vida privada, quer na pública, não há quem não tenha feito, em algum momento, a velha pergunta de Drummond: “E agora, José?”. O porta-voz da Rede Sustentabilidade em Sergipe, Dr. Emerson Ferreira da Costa, certamente não é um José qualquer, mas foi essa a pergunta que deve ter-se feito ao ver-se sem discurso, após anunciar que faria aliança com o PSB, observar toda a negativa reação que sua decisão causou e, horas depois, recuar do acordo anunciado.

Não que uma aliança com os Valadares fosse desabonadora, mas Emerson calculou mal os próprios passos, não soube antever as naturais reações iniciais – por conta, sobretudo, de sua anterior narrativa - nem tão pouco soube preparar o terreno, criar as condições ideais para que sua aliança com os Valadares acontecesse sem maiores reboliços negativos junto à opinião pública – erro compartilhado, diga-se de passagem, pelo experiente líder do PSB.

Ao aceitar a proposta de Valadares e tentar rifar a pré-candidatura do delegado Alessandro Vieira para o senado, o líder do Rede acabou por fortalece-la e por enfraquecer-se enormemente, inclusive no interior do partido. O que seria um natural reencontro, constituiu-se em um tremendo baque para o ex-vereador. Tudo muito desnecessário.

É bom lembrar que o reencontro entre Dr. Emerson e Valadares foi ensaiado em 2016, mas era estrategicamente importante para Dr. Emerson o “puritano” discurso, perdido semana passada. Reencontro visto que, em 2006, o redista fora candidato a deputado estadual pelo PSB, quando obteve modestos 2.837 votos.

Pragmático, o presidente (?!) estadual do Rede passou da condição de um mero vereador, eleito por dois mandatos pelo PT - graças ao grupo liderado pelo deputado estadual Francisco Gualberto - para a condição de “líder maior” de uma sigla partidária que se fortaleceu muito, em pouco tempo. Meio apagado no interior do PT, o ex-vereador buscou e encontrou no Rede o terreno de que precisava para plantar seus projetos. E fez isso com certa competência.

Ao filiar-se ao partido da presidenciável Marina Silva, dois anos após o nascedouro provisório da sigla – que se deu, em Sergipe, pelas mãos da assistente social Natália Dalton e mais meia dúzia de outros marinistas - “o velho Emerson de guerra” tornou-se “dono da sigla” no estado, ainda que as decisões do Rede deem-se via um coletivo, os chamados “elos”.

A emenda saiu pior que o soneto

O recuou do Rede Sustentabilidade, em fazer aliança com o PSB, talvez venha a causar maior estrago a imagem do partido, e mais particularmente a seu pré-candidato ao governo, do que acordo manifestado causaria. Mantida a aliança, os partidos tratariam de encontrar uma narrativa, reproduziriam o discurso de “os Valadares fichas-limpa”, de uma suposta aliança programática, “da necessidade” de concessão ideológica e muitas outras úteis baboseiras e tudo estaria justificado, e pronto. Passado “o choque” inicial, o andar da carruagem trataria de arrumar as abóboras. Ao recuarem, mostraram-se inseguros, frágeis em relação ao que desejam, sem estratégias claras de batalha política, nem coragem, muito menos condições para governar o estado.

O peteleco do PSOL na Rede

Essa não foi a primeira vez que o Rede Sustentabilidade apronta das suas. Em 2016, Dr. Emerson fez circular por entre os filiados, um diálogo suposto diálogo entre o Rede e o PSOL, que supostamente havia manifestado interesse em indicar o vide de Emerson, na corrida pela prefeitura de Aracaju. A notícia fora, inclusiva, anunciada durante a Convenção Municipal do partido, na Câmara Municipal de Aracaju. O peteleco do PSOL no Rede foi à altura do absurdo cometido pela turma de Emerson. Não havia diálogo coisa nenhuma, tudo não passou de recurso sórdido para esfriar alguns ânimos no interior do partido, posto que alguns dirigentes defendiam a construção de alianças. O Rede nunca respondeu ao documento “desaforado” do PSOL, que negou a inexistência de qualquer diálogo com o Rede e o chamou, grosso modo, de um partido “pelego”.

Valadares vacilou

O senador Valadares e o ex-vereador Emerson Ferreira da Costa tem estaturas políticas distintas, trajetórias públicas quilometricamente distantes. Iguala-los em musculatura histórica seria um exagero. O episódio envolvendo-os, no entanto, pegou mal para Valadares pai e Filho. Coube ao filho correr para dizer que o diálogo com o partido de Marina era coisa do passado. O que ficou para a opinião pública é de que estão enfrentando dificuldades para fechar a chapa. Para apimentar tal impressão, essa semana houve também a recusa da vereadora Emília Corrêa em ser vice de Valadares Filho.

Valadares que ser dos 5.3%

O Senador Valadares quer, e tem escopo, para fazer parte do reduzidíssimo 5,3% de parlamentares brasileiros que conquistaram quatro mandatos ao longo das últimas três décadas. Tanto se confia, e tanto conhece os meandros do poder, que, “de quebra”, quer seu filho governador do estado – ou talvez seja o inverso. “Novo” Valadares não é, mas tem discurso sempre adequado ao momento.

O novo é velho I

Talvez o leitor não saiba, mas o Brasil é, dentre as chamadas democracias modernas, uma das nações que mais elege “nomes novos” na política, ao menos para a Câmara dos Deputados e o Senado Federal. E isso a cada eleição. De 1990 até 2014, 57% dos deputados estiveram na Câmara por um único mandato. Dos 1.989 deputados eleitos nesse período, 103 conseguiram se eleger senadores, prefeitos ou governadores ao final do período, o que representa tão somente 5,4% do total de parlamentares. Entre os senadores, apenas 10,4%, dos 259 diplomados nesse mesmo período conseguiram ser eleitos para um dos referidos cargos ou se contentaram em ir para a outra casa, a dos deputados, enquanto 79,2% deles caíram fora após o fim de seus diplomas.  

O novo é velho II

Os dados acima foram publicados pelo jornal Folha de São Paulo, de 17 de junho deste ano, em material do repórter especial e escritor Marcos Augusto Gonçalves. Gonçalves entrevistou dois jovens pesquisadores brasileiros, Eduardo Cavaliere, 23, graduado em direito, com concentração em matemática pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro; e de Otávio Miranda, 24, pesquisador na área de economia política do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros, na China. Segundo eles, no Congresso brasileiro, “reeleição não é regra, mas exceção”. A prova disso, dizem eles, é que 47% do atual Congresso foi renovado nas últimas eleições. E mesmo assim o Brasil teve o pior congresso de sua história recente. “O que será, que será” ?!

O novo é velho III

Como bem frisa o jornalista Marcos Gonçalves, na apresentação da entrevista com os dois pesquisadores, “de uma hora para outra assumiu-se em determinados círculos que o principal problema do país residia na perpetuação de políticos tradicionais, permeáveis à corrupção e ligados a interesses nebulosos”. Os números, no entanto, negam o referido mantra. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, 95% dos congressistas foram reconduzidos ao poder nas últimas eleições; o mesmo acorrendo em países como a Inglaterra e Espanha, onde o número de parlamentares reeleitos foi de 90%, no caso dos britânicos, e de 88% no dos espanhóis. A questão não é, obviamente, de renovação de nomes.

Outros dados

No Brasil, de 1990 a 2014, “o percentual de deputados eleitos cai bastante conforme se adicionam mandatos. Aproximadamente 11% dos deputados alcançaram a marca de três mandatos; 5,3% a marca de quatro; 3,3% tiveram cinco e só 2,4% chegaram a seis. [Para comparar], nos EUA, na legislação atual, apenas 13% da Câmara é representada por deputados de primeiro mandato”.

.. mas há algo de novo sim no Brasil

O Brasil vive um outro grande momento de sua história recente. Há sim algo de diferente, “de novo”, acontecendo na “realpolitik” nacional, o que tem, inclusive, provocado atritos nas engrenagens do poder. Os ruídos dessas engrenagens tendem a ser maiores quanto mais próximo do mês de outubro. Depois os ânimos baixam! Agora a pergunta que não eu calar: os brasileiros serão capazes de aproveitar o momento, e “fazer a sua parte” - como tão enfadonhamente se repete?! Sim, vai! “Mas não vai adiantar lá muita coisa não”! Há sim algo de novo acontecendo no Brasil. Mas esse novo ainda estar no que os historiadores chamam de curto espaço de tempo.

O custo da violência no Brasil

A criminalidade no país custou R$ 285 bilhões aos cofres públicos em 2015. Em 2014, o custo foi de 255 bilhões no ano. Isso equivale a quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB). Há dez anos, esse custo era quase três vezes menor (113 bilhões).

Entre Aspas

I - “Eu também estou no que deixei de viver. Minhas desistências falam de mim tanto quanto o que levei adiante.” Padre Fábio de Melo

II - “Política não é parque de diversão para criancinha” – Frase de apoio utilizada por militante do Rede, em apoio à aliança, depois desfeita, entre o Rede e o PSB.

III - “Nós vamos dar o troco...” Slogan utilizado pelo Rede Sustentabilidade em campanha eleitoral.

 

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