30/07/2018 as 16:01

Entrevista com Márcio Dória, pré-candidato a deputado federal pelo PC do B

“Fazer jornalismo é não praticar nunca, jamais, sob hipótese alguma, a patrulhagem ideológica”. Geneton Moraes Neto, jornalista e escritor Sem Aspas, por Alex Nascimento

Sem Aspas

Politica
Por Alex Nascimento
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O material que o leitor tem na tela abre o ciclo de entrevista que a coluna Sem Aspas passa a publicar. Não interessa aqui o jogo barato da política, o leva-e-traz das intrigas comezinhas dos partidos. A Sem Aspas interessa “saber” o que o sujeito pensa, o que o leva a ser postulante do voto de confiança do cidadão.

A nossa primeira entrevista é o com o pré-candidato a deputado federal, Márcio Dória. Natural da cidade de Propriá, Dória é sócio fundador de uma dos mais importantes escritórios de advocacia trabalhista do Nordeste. Ao sair de sua zona de conforto, cercou-se das condições para vir a ter um bom desempenho eleitoral. Tem ele, por exemplo, o apoio de dezenas de sindicatos espalhados pelo estado e diz querer fazer parte de uma “bancada nacional dos trabalhadores”. Filiado ao PC do B, ele fala de suas escolhas, analisa o cenário político, diz das lutas dos trabalhadores e da realidade de sua região, e de suas propostas.

Sem Aspas -   Como o senhor analisa o eleitor brasileiro?

Márcio Dória – Há, na cabeça dos políticos e na cabeça de um parte do eleitor, a ideia de que só quem vota é quem recebe o bolsa família, só quem vota é o corrompido por cinquenta reais. Não é verdade. O cidadão que não pode mais pagar uma escola privada para seu filho, que perdeu o plano de saúde, e agora é obrigado a enfrentar os péssimos serviços de saúde pública, que parou de pagar o financiamento de seu carro, e vive tantas e tantas dificuldades, esse cidadão também vota. Esse cidadão quer votar sim, mas quer votar com confiança, com a certeza de que o sujeito é ficha lima, de que o escolhido representa renovação de fato.

Sem Aspas – Há uma intensa rejeição ao político de maneira geral. Como o senhor tem convivido com o eleitor?

Márcio Dória – Muito bem. É preciso dialogar com franqueza com o cidadão, chama-lo para reflexão e dizer que não se faça omisso, que escolha, escolha um e vá lá e defina. A omissão elege quem não o representa. O cidadão, sobretudo o cidadão médio, mais esclarecido, não pode se omitir de seu papel, desistir do destino da própria vida, porque eleição é isso, é definir o destino da vida de todos nós.

Sem Aspas -  Essa é a primeira vez que senhor é pré-candidato. Qual é a sua principal bandeira?

Márcio Dória -  Há um movimento a nível de Brasil no sentido de fazer uma bancada parlamentar mais ligada ao trabalhador, mais ligada aos movimentos sociais. Aqui em Sergipe, fomos chamados por algumas lideras sindicais, em função, sobretudo, de nossa história de 25 anos de atividade profissional ligados ao trabalhador; recebemos também dezenas de manifestações de colegas advogados e de lideranças sociais em vários cantos do estado.

Sem Aspas -   Além de ser um nome ligado a questões trabalhistas, que outras bandeiras o senhor defende?

Márcio Dória – Direi quais são... Mas quero, antes, reforçar o fato de que o sujeito que entra na política não pode ter vergonha de dizer que ele representa. Há políticos que se escondem, políticos que representam setores empresarias, que representam o agronegócio, por exemplo, e se escondem, não dizem claramente à sociedade quem ele é e o que faz. Eu represento os movimentos sindicais, os trabalhadores, as comunidades ribeirinhas.

Sem Aspas -   Mas haveria algum motivo para ter vergonha de representar sindicalistas e trabalhadores? Como assim?

Márcio Dória - Em função de um passado muito recente, do desgaste envolvendo o PT, cuja bandeira sempre foi o trabalhador, em função de um possível desgaste da esquerda. Há quem acredite que ele pode respingar em quem tem as bandeiras que defendemos. Mas nós reafirmamos: nossa candidatura representa lutas históricas de inúmeras categorias, dos sindicatos, representa o trabalhador. Nós vamos conquistar uma cadeira no parlamento federal, vamos fazer parte da bancada que defende os interesses do trabalhador, como sempre fizemos, a vida toda.

Sem Aspas -  O senhor chegou a flertar com a Rede Sustentabilidade e com o PDT, recebeu convite do senador Amorim e outras lideranças de peso no estado, mas fez opção final pelo PC do B. Quais as razões para a escolha?

Márcio Dória - Eu participei do PC do B no final da década de noventa, até 2007. Retornamos pelas mãos da sindicalista Ivânia, presidente do Sindicato dos Bancários de Sergipe. Nós temos uma relação muito grande com Ivânia, somos muito gratos e temos muita admiração por ela. Ivânia, eu costumo dizer, é a madrinha de nossa pré-campanha. Ela tem uma história na luta sindical, na defesa dos trabalhadores que nos aproxima. Além do sindicato dos bancários, Ivânia faz parte também da CTB, a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, ou seja, é uma pessoa dedicada a defesa de todos os trabalhadores, de todas as categorias.

Sem Aspas -   E a parte mais política do PC do B?

Márcio Dória - Do lado político fomos recebidos pelo professor Bittencourt, com quem estabelecemos uma relação muito positiva.

Sem Aspas -   O senhor é de Propriá, uma cidade ribeirinha...

Márcio Dória - A cidade de Propriá nunca foi vista pelos políticos. Aliás, não apenas a cidade de Propriá, mas todo o Baixo São Francisco. Extremamente rica culturalmente, com o rio à porta, mas simplesmente os políticos abandonaram, e foi a todo o baixo São Francisco. Veja, por exemplo, o Vale do Cotinguiba. Composto por cidades importantes, com mão de obra qualificada e um nível de desemprego altíssimo, uma situação extremamente caótica.  Da mesma forma a região Centro-Sul, cidades como Boquim, onde havia a indústria da laranja. Se você for para o sertão é a mesma coisa. A indústria da seca continua por lá. Temos a situação das queijarias, que é uma situação gravíssima, assim como a questão do abate de animais, já que não há matadouro. Claro que há alguma regiões que foram privilegiadas pelos políticos, por uma questão exclusivamente eleitoral. É preciso ter outros critérios para distribuição dos investimentos. É inaceitável, por exemplo, que o Vale do São Francisco seja considerado um bolsão de pobreza, uma região rica em recursos como aquela.

Sem Aspas -  O que o senhor propõe?

Márcio Dória - Quando nós falamos em representar os trabalhadores, nós falamos também dos trabalhadores dessas regiões. Nesse sentido, é preciso pensar melhor o estado com relação à democratização dos investimentos econômicos, considerando o potencial produtivo de cada região. Os políticos, ao invés de pensar projetos e ações para as 16 cidades, preferem canalizar seus esforços e investimentos para cidades onde o coeficiente eleitoral é relativamente muito alto e portanto, com um tacada só, conquistar muito mais eleitores. É preciso pensar o estado como um todo, e isso o parlamentar deve ajudar a fazer. A questão dos ribeirinhos, por exemplo, é um debate que perpassa por uma visão também mais ampla sobre meio ambiente, a questão ambiental com estratégica para o desenvolvimento econômico e geração de emprego e renda.

Sem Aspas -  O que o senhor está afirmando é que falta projeto de desenvolvimento econômico para o estado e que não se pensa o estado considerando as realidades regionais, mas sim a questão puramente política, eleitoreira mesmo?

Márcio Dória - Qual o governo que de fato apresentou e executou um projeto seguro, sólido, de desenvolvimento das regiões do estado e em que pilares? Qual o resultado desse projeto no curto, no médio e no longo prazo? Essas são algumas perguntas que precisam ser formuladas e respondidas pelos sergipanos, sobretudo os setores mais esclarecidos. Eu acredito que esse deve ser também o papel de um parlamentar. Ajudar o estado e o país a encontrar soluções para os seus impasses. A política de turismo, por exemplo, precisa ser melhor refletida.

Entrevistador – Você vai disputar com nomes que estão há um bom tempo na política. Isso não o preocupa, não o desanima?

Márcio Dória – Não, em hipótese alguma. Eu sei do nosso potencial, eu sei do potencial do grupo que estar conosco, de meus amigos e compromissos, das relações que estamos construindo e sei de minha história. Nós não temos uma tradição política na nossa família, mas eu tenho um nome conhecido nessa região. As pessoas me conhecem em Propriá, em Cedro, em Telha, em Ilha das Flores, em Aquidabã e em outros municípios, e me conhecem na capital.

Entrevistador – Mas o senhor há de convir que em política, só ser conhecido não é o suficiente...

Márcio Dória – Em todas essas regiões nós temos pessoas que conhecem nosso trabalho. Pessoas que inclusive saem hoje de interiores e vem aqui fazer parcerias com a gente. Diferente dos outros políticos que tem lá suas relações, entre aspas, não muito saudáveis, nós temos parcerias e essas parcerias são fortes, sólidas, de amizade, de relação de trabalho, de ralação de respeito, de carinho. Nós não temos no nosso projeto político compra de voto, isso aqui não existe. Nós temos, na realidade, uma relação com as pessoas, parceira com as pessoas. E essa parceria é com seu José, com seu João e dessa parceria podem esperar o cumprimento daquilo que assumo, que defendo. O que eles querem de mim é que eu seja um bom represente, que cumpra com minha palavra, continue honrando a minha história e os parceiros.

Entrevistador – O que não vai faltar é candidato se dizendo diferente. O que é ser diferente na política? O que é “ser novo” na política

Márcio Dória – É sair da nossa zona de conforto, é colocar o nome à disposição para enfrentar desafios e não teme-los. O novo somos nós, o novo é todo aquele que não esmorece, que continua acordando todos os dias e indo à luta por um pais melhor para todos, e faz isso com ética, com respeito ao outro, mantendo a dignidade.  Novo é quem compreende que o Brasil cada vez mais acorda para a realidade política, que cada vez mais exige decência na política. O novo é dizer de maneira objetiva quais são seus compromissos e quem de fato representa.

Entrevistador – Ribeirinho que é, como o senhor ver a questão da transposição do Rio São Francisco?

Márcio Dória - Houve uma transposição do rio, aparentemente um projeto muito mais montado para fraudar o brasileiro, porque até hoje não se ver os benefícios da transposição, vemos os malefícios. O rio continua precisando de revitalização. Quando eu era garoto, eu pulava da balaustrada da ponte de Propriá e o rio era rico e limpo. Trago em minha memória e em meu coração as águas do são Francisco. Sou o único candidato com o DNA real daquela região.  Sou da região e sei de suas necessidades. Há uma relação afetiva também, nós pescávamos naquele rio, hoje o rio está praticamente morto. Mas o que dói, o que nos deixa ainda mais indignados é ver a exploração política do rio. A consequência disso é a situação de sofrimento e de dor vivida pela população ribeirinha, vivida pelos pescadores e seus familiares.

 

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