06/01/2019 as 08:50

“Menino veste rosa e menina veste azul” – Uma fala castradora e perversa

Consciência e (R) Existência, por Linda Brasil

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
Foto: (Reprodução/CPERS).<?php echo $paginatitulo ?>

 

Parece surreal que uma ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos em pleno século XXI, na sua posse, tenha uma fala tão absurda e limitada como essa. No dia 02/01/2019, logo após o seu discurso de posse, festejando com seus/suas apoiadores/as, Damares Alves pede silêncio e grita em tom empolgante: “Atenção! Atenção! É um nova era no Brasil: menino veste azul e menina veste rosa!”. Logo depois percebem-se gritos e aplausos dos/as seus comparsas. Pasmem: ela repete a frase! Não temos problemas mais sérios que devam ser combatidos, como exclusões, desigualdades e violência sofridas por mulheres, negras/os, crianças, indígenas, idosos/as, etc?

O que está por trás de uma fala como essa? Será que o problema das mulheres, das famílias e de grupos que sofrem opressão e violência é a cor da roupa que as crianças vestem? Essa categorização e diferenciação é massivamente usada para aprisionar crianças em caixinhas que são impregnadas de regras que reprimem, oprimem e violentam quem não se encaixa nessas normas, causando sofrimentos e traumas que as acompanham para o resto da vida.

Essa discussão perpassa por questões muito sérias. Antes de nascermos, os pais já criam expectativas em relação ao gênero da/o filha/o. Muitos desses anseios em relação aos/às filhos/as não são concretizados, porque cada criança tem sua singularidade e os pais têm de respeitar, deixar as crianças livres para viver da forma que se sintam mais felizes. Mas percebemos, por parte de muitos pais ocupados com as aparências, uma adesão a normas castradoras e violentas, como esta do “rosa e azul” que não se ocupa em perceber a essência e o caráter da criança e muito menos seus sentimentos. Desta maneira, pais e mães são vistos como “bons” quando na verdade estão, através de suas atitudes e comportamentos, perpetuando ódio, desrespeito e violência, quando as/os filhos/os não correspondem a esses padrões heterocisnormativo. Infelizmente é muito comum que pais e mães violentem e muitas vezes expulsem suas/seus filhos/as de casa. Muitos deles acabam pensando, tentando e cometendo o suicídio por causa dessa pressão.

Essa fala retrógrada, aparentemente inocente e didática para uma separação do que é menino e menina, tem somente a intenção de manter a desigualdade entre homens e mulheres, proporcionada pelo sistema patriarcal e capitalista.  Somos vítimas deste mesmo sistema que se utiliza dessas normas para criar mais opções de vendas e manter as pessoas alheias ao que de fato devem ser: indivíduos livres. A ideia é massificar as pessoas, a fim de que elas passem a vida no empenho para parecer o que não são, vivendo paradigmas de consumo que as aproximam de objetos, afastando-as de sua humanidade. Tudo isso com o objetivo de aumentar o lucro das empresas de roupas, brinquedos, produtos escolares, etc., dentro de um sistema capitalista atrasado como temos no Brasil.

Percebemos uma pérfida e malévola distorção das coisas. A resposta da ministra sobre a polêmica do assunto, foi que ela estava fazendo uma metáfora sobre “Ideologia de Gênero”. Termo criado pelo fundamentalismo religioso e por perseguidores da comunidade LGBT, com intuito de negar direitos para essa população tão marginalizada. Mas o que seria “Ideologia de gênero” para esse governo? Seria menino usar a cor rosa, brincar ou fazer coisas que não são determinadas para ele e menina usar azul? Isso demonstra um total desconhecimento sobre o assunto.

Os estudos de gênero são discussões provenientes da luta e resistência feminista para combater a desigualdade e violência contra as mulheres, fazendo algumas reflexões e críticas dos papéis sociais de homens e mulheres. Hoje em dia existem algumas vertentes do movimento feminista e LGBTQI+ que discutem também as normas compulsórias da heterossexualidade e da cisgeneridade. Essas discussões não têm a ver somente com as mulheres e LGBTs, mas com todas as pessoas que não conseguem se encaixar nos padrões castradores baseados em princípios morais de certas religiões conservadoras e retrogradas. Assim, falar de gênero vai muito além de LGBTfobia: é falar de sexismo, machismo, sexualidade, misoginia e violência.

A reprodução da frase de Damares é uma total mediocridade e perversidade. Devemos perceber que não se trata meramente de uma questão de cor, e sim de amarras e padrões que essas caixinhas representam. É de uma ignorância assustadora!

Mas o que estará por trás disso? Está a necessidade de mostrar que este governo vai reforçar a ideia de que homens são superiores e mais capazes do que as mulheres. Será propagada a noção de que cabem às mulheres as atividades da casa, assim como a ideia de que homens não têm sentimentos, com a fala: “homem não chora”. É querer aprisionar as pessoas em padrões agindo de forma ideológica a favor de um sistema que provoca opressão e violências, fazendo com que meninas e meninos cresçam pensando que o homem é superior e que têm mais poder.

Meninas e meninos podem usar a cor que quiserem e brincar com aquilo que os/as faz mais felizes. Isso é respeito as nossas singularidades. Isso é igualdade! Isso é respeito! Isso é ter consciência de nossa existência! Isso sim é amor!




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