01/03/2019 as 09:52

Masculinidade e heterossexualidade frágeis!

Por que será que muitos homens heterossexuais são tão inseguros sobre sua sexualidade?

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
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Infelizmente, é mais comum do que se imagina que muitas pessoas que se identificam como heterossexuais e masculinas, na verdade, não se sintam dessa forma, escondendo de si suas dúvidas e demonstrando em comportamentos o quão são frágeis e inseguras.

Recentemente aconteceu um episódio muito interessante, que demonstra muito bem essa fragilidade da heterossexualidade e masculinidade de certos homens.

O artista Nego do Borel, um cantor de funk, teve uma reação transfóbica ao receber um simples elogio, por rede social, da Luisa Marilac. Luísa é uma travesti que ficou famosa nas redes por causa de um vídeo na piscina. Vou resumir o ocorrido para quem não acompanhou: Ela o elogiou numa foto e, logo em seguida, o cantor respondeu a tratando com pronomes no masculino, ignorando a sua identidade e “tirando onda”, tratando-a como se ela fosse um homem.

Este gesto de Nego do Borel, tratando a situação como brincadeira, e pedindo desculpas sob a alegação de que a conduta seria recorrente em sua comunidade reflete, na verdade, um adoecimento agudo nos sentimentos das pessoas em relação ao outro, e também em relação a si mesmas. Afinal, essa atitude demonstra que ele considera a relação com a sexualidade a partir da genitália e não do coração e do cérebro.

Esse tratamento dado a Luísa é uma das formas mais agressivas de atacar as mulheres trans e deslegitimar o gênero feminino.

Depois das polêmicas e dos ataques do movimento LGBTQI+, ele tentou se retratar. Mas ficou bem claro que o simples fato de receber um elogio, que ele pode ter entendido como “cantada” de uma mulher trans, colocou em risco sua masculinidade.

Vivemos numa sociedade patriarcal e heterocisnormativa. Nela, há uma pressuposição de superioridade dos homens, cis e héteros, em relação às mulheres, devido a uma predominância histórica do controle de funções sociais visando que o poder seja exercido somente pelas pessoas do gênero masculino. Diante dessa cultura e da condição de uma pressuposta superioridade, desde antes do nascimento os homens são colocados numa posição de poder e muitas pessoas nem percebem e naturalizam vários privilégios sociais que são vistos como normais e exclusivos de homens.

Desde cedo, são ensinados a tudo poderem, menos chorar; são pressionados a assumirem uma masculinidade forte, agressiva, violenta, insensível, afastada da empatia. Têm sua sexualidade precocemente estimulada a demonstrar uma “virilidade” como heterossexuais e com foco em quantidade de parceiras e tamanho do falo. Esses paradigmas infelizes são alimentados antes mesmo do nascimento das crianças.

Antes de nascermos, a pergunta comum para as mães é: é menino ou menina?

Muitas pessoas realizam as ultrassonografias mais preocupadas em descobrir o sexo do bebê do que a saúde dele. Desde o ventre, as crianças são colocadas em caixinhas, que só têm duas possibilidades: uma rosa para as meninas e uma outra azul para os meninos. Só que além das cores que definem essas caixinhas, existem normas e padrões dentro deste pacote, impostos socialmente, com objetivo de determinar todo um “roteiro” de expectativas de papéis sociais a serem exercidos ao longo da vida. São funções e condições totalmente desiguais e com uma lógica heterossexual patriarcal altamente perversa e perigosa, provocando comportamentos de violência, tanto para quem não aceita ou não segue essas normas, quanto para quem as vive e precisa se oprimir e se afastar de sua essência de sentimentos. Tais imposições de papéis sociais de homens e mulheres acabam sendo muito prejudiciais para todo mundo, mas principalmente para quem escapa dessa compulsoriedade normativa.

As crianças vêm sendo altamente violentadas, não só as pessoas LGBTs mas também as heterossexuais que desviem um pouco dessas normas preconceituosas e opressoras.

Meninos são condicionados a brincadeiras com atividades físicas, enquanto as meninas são estimuladas ao interesse por tarefas domésticas, como brincar de casinha, boneca, cozinha. Na vida adulta, tanto homens quanto mulheres precisam de habilidades físicas e devem cuidar das questões domésticas, que envolvem cozinhar, cuidar de crianças e arrumar a casa. No entanto, essas últimas tarefas são encaradas como “coisas de mulher”.

Os homens são criados de forma bem liberal, onde podem tudo, exceto chorar. Essa postura é uma forma de reprimir suas emoções e sentimentos, fazendo com que cresçam, muitas vezes, como ‘monstros’, insensíveis e violentos, não aceitando um simples fim do relacionamento por iniciativa por parte da mulher, bem como se sentindo incomodados ou ameaçados quando encontram um gay afeminado ou uma travesti na rua. Muitas das vezes, esses homens violentam as pessoas LGBTQI’s de forma cruel, chegando até a executar com requinte de crueldade, como aconteceu com a travesti Dandara. Ela foi brutalmente espancada e executada por oito adolescentes no dia 15 de fevereiro de 2017 e quinze dias depois, percebendo que não iriam ser investigados, postaram na rede sociais o vídeo filmado por eles mesmo, onde mostra toda a barbárie.

Um dos motivos alegado para não discutir gênero e diversidade sexual nas escolas é o fato de que esses debates poderiam induzir as crianças à homossexualidade ou à transgeneridade. Mas por que todo esse medo? Será porque a heterossexualidade é tão frágil assim que não se pode falar sobre outras formas de se relacionar e de se identificar socialmente?

Esse medo tem muito a ver com a compulsoriedade da heterossexualidade e da cisgeneridade e pelo tabu que temos na sociedade em falar sobre sexualidade. Isso prejudica também as pessoas heterossexuais e cisgêneras devido a enorme pressão e tensão que vivem em ter de seguir à risca esses padrões e que muitas vezes, quando não conseguem, também sofrem pressões. Muitos homens são criados sendo forçados a se encaixar nessas masculinidade opressora e violenta, gerando assim comportamentos de violência em relação as mulheres e pessoas LGBT’s.

Além deste episódio, percebemos na mídia e nas propagandas de produtos “masculinos” várias situações que demonstram o quanto a sociedade tem dificuldade em lidar com sua masculinidade. Muitos homens que não têm uma postura crítica sobre si e sobre o mundo precisam seguir uma “fórmula” de autoafirmação que comprove e ateste sua masculinidade, demonstrando, na verdade, muitos problemas e insegurança com sua sexualidade.

Precisamos urgentemente mudar essa cultura na qual a masculinidade heterossexual é idolatrado e colocada num patamar de superioridade e infalibilidade. É essa masculinidade frágil e opressora que se diz superior que já não cabe mais no século XXI.




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