29/03/2019 as 14:08

A comemoração macabra e assustadora

Uma fase triste da história, de 1964 a 1985, 21 anos de tortura e morte no Brasil.

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
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Em relação ao golpe militar de 1964, as pessoas que têm o mínimo de compromisso com a democracia, com a tolerância e que de fato trabalham para o bem do povo brasileiro sabem: não temos nada a comemorar. Pelo contrário, temos muito a repudiar para que não volte a acontecer.

O golpe foi o início de uma fase triste da história do país, que durou 21 anos e deixou um saldo de torturas e mortes. É altamente perigoso que o Brasil tenha eleito para presidente alguém que exalta um torturador em pleno Congresso Nacional e que já fez várias declarações públicas de que a ditadura “não fez o seu serviço direito e que e que os militares mataram pouco, tinham que ter matado pelo menos uns 30 mil”. Existem vários vídeos que comprovam essas falas e que incentivam o crime e o ódio às minorias.

O aval que o atual presidente do Brasil deu as Forças Armadas para comemorar o golpe militar de 1964 é mais um ataque a nossa democracia. Uma sinalização macabra do que ele pode ser capaz de fazer para se manter no poder. Mais um sinal evidente de seu autoritarismo e de suas ideias reacionárias e de perseguição à classe trabalhadora e aos direitos individuais dos/as menos favorecidos. Afinal, sabemos que estes grupos são os mais perseguidos nos regimes autoritários.

Em 31 de Março de 1964 começou um regime militar que perseguiu, torturou e executou centenas de brasileiros/as que não aceitavam as atrocidades perpetradas. Com apoio de parte da classe política, aliada a um judiciário omisso, generais inescrupulosos destituíram um presidente eleito pelo povo brasileiro. O golpe foi estimulado pelos EUA, como aconteceu com outros países da América Latina. O IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) também foi responsável pela manipulação da opinião pública, divulgando informações distorcidas para que o povo acreditasse que a intervenção militar seria a única alternativa de ordem e de tirar do poder ideias socialistas.

Essa disseminação perigosa de informações falsas, que confundia a população e a desviava das atrocidades cometidas nos lembra o que aconteceu nas eleições de 2018, com as fake news da era digital.

O golpe de 64 foi uma articulação de vários setores da sociedade e do capital estrangeiro, inconformados com as reformas que beneficiariam a população mais pobre. João Goulart tinha posições políticas ligadas à esquerda e apostou em reformas de base que contrariavam os interesses dos grandes latifundiários e empresários, incluindo aqui as grandes redes de telecomunicações, os coronéis da política e os religiosos conservadores.

Uma dessas medidas foi a reforma eleitoral que permitiria que os analfabetos votassem (na época correspondiam a 60% da população brasileira). Essa restrição do direito de voto beneficiava os partidos dominantes, mais preocupados com seus interesses e os dos grandes investidores de campanhas eleitorais.

Por falar em investidores de campanha e seus interesses, até hoje este “toma lá dá cá” acontece na vida política entre empresários e políticos, o que ficou claro no golpe de 2016, que também contou com a manipulação da opinião pública através de informações distorcidas e da perseguição aos ideais socialistas.

O que aconteceu em 1964, em 2016 e nas eleições de 2018 - culminando com a chegada ao poder de uma pessoa altamente despreparada e com comportamentos ditatoriais - foi muito similar. Golpes e mentiras motivados pela ganância de alguns com único intuito de manter os privilégios de quem sempre se manteve no poder, dominando, explorando e oprimindo a classe trabalhadora, as mulheres, negro/as, os/as índios/as, as LGBT’s, todas as pessoas que têm menos oportunidades de ocupar espaços de poder, principalmente na política.

Nesse período de 21 anos, de 64 a 85 - quando terminou o período do regime militar no Brasil - ocorreram várias ameaças aos direitos individuais dos/as brasileiros, além da censura que impedia a liberdade de expressão e que contribuía para que a população não tivesse acesso as informações sobre as atrocidades. Aqueles que se manifestavam contra o regime foram perseguidos, torturados e executados. Alguns, com receio de serem assassinados, pediram asilo em outros países.

O golpe, que começou com a promessa de rápida volta ao regime democrático, logo adotou medidas de caráter ditatoriais, por isso que foi um período de ditadura e não uma ação para deter a desordem e um possível ditadura comunista, como o atual presidente e seus colaboradores defendem. Foi nessa época que surgiram os Atos Institucionais, decretos do Regime Militar com força de lei. Os primeiros AIs deram poder aos militares para alterar a Constituição, dissolver partidos políticos, determinaram eleições indiretas e revogaram a Constituição de 1946, entre outras medidas que só beneficiavam o interesses de quem estavam no poder.

É inadmissível e criminoso que um presidente da república e as Forças Armadas não reconheçam as atrocidades perpetradas nesse período. Uma violência e um total desrespeito ao povo brasileiro e a todas as famílias que tiveram seus entes queridos torturados e executados. Alguns sequer puderam enterrar seus mortos, pois alguns corpos ainda não foram localizados. Não podemos aceitar que comportamentos como esse sejam vistos como normais e que a justiça e o povo brasileiro fiquem inertes. É preciso legislar contra o incentivo a violência e a tortura e ocupar as ruas para denunciar e impedir esses comportamentos perigosos para a ainda frágil democracia do Brasil.

Essas atitudes de caráter fascista, bem como as primeiras medidas desastrosas desse governo demonstram a falta de comprometimento com os direitos humanos e com algumas conquistas do povo brasileiro, principalmente a classe trabalhadora e os mais vulneráveis socialmente. É uma ameaça os poucos direitos conseguidos com tanta resistência, luta e mortes dos que se dedicaram para que os/as trabalhadores e as ‘minorias’ (não em quantidade, mas sim em direitos) tivessem um mínimo de dignidade garantida.

Precisamos urgentemente denunciar e ocupar as ruas para que o Brasil não retorne a um dos períodos mais terríveis de nossa história. Se nada for feito para impedir esses comportamentos, com o tempo, vai ficar mais difícil controlar esse governo incompetente e submisso ao império econômico dos EUA, que visa destruir nossa democracia e liberdade.




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