13/04/2019 as 12:06

Pessoas Trans ocupando espaços de destaque, por que isso incomoda?

Na semana passada, dois episódios envolvendo pessoas trans provocaram polêmicas e discussões, demonstrando a grande transfobia existente no Brasil.

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
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Tifanny Abreu, jogadora de vôlei do SESI/Bauru, sofreu preconceito e foi ofendida pelo técnico Bernadinho, que justificou a vitória do outro time tentando deslegitimar a verdadeira identidade de gênero da jogadora.

Tifanny é a primeira mulher trans a participar da Superliga Feminina de Voleibol. Desde 2017, ela tem autorização da Confederação Brasileira de Voleibol - CBV e da Federação Internacional de Voleibol - FIBA para atuar nos campeonatos femininos. Também, desde 2015, o Comitê Olímpico Internacional (COI) autoriza transexuais a atuarem no esporte de acordo com sua verdadeira identidade de gênero.  Mesmo assim, ano após ano Tifanny é alvo de preconceito, sendo destratada publicamente, o que demonstra a resistência de muitos brasileiros e brasileiras em respeitar os sentimentos e a identidades dos seres humanos ao seu redor.

Outro triste episódio de declarações transfóbicas envolveu o deputado estadual de São Paulo Douglas Garcia, do PSL. No plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo – ALESP, ele atacou horrivelmente Érica Malunguinho, a primeira deputada trans eleita no Brasil.

Na ocasião, para defender o PL 346/19 que “estabelece o sexo biológico como o único critério para definição do gênero de competidores em partidas esportivas oficiais no Estado”, criado justamente por causa das polêmicas que envolve a jogadora Tiffany, Douglas afirmou que expulsaria a tapas uma mulher trans do banheiro.

Após a fala transfóbica do deputado, Érica solicitou o direito de resposta e denunciou a gravidade do discurso, apontando quebra de decoro: “Eu exijo que essa casa abra um processo de quebra de decoro parlamentar por incitação ao ódio. Ele acaba de incitar o ódio e a violência contra pessoas transexuais. Senhor deputado, aliás nem deveria me dirigir ao senhor dessa forma, mas tenho educação, quero lhe dizer uma coisa: você não sabe absolutamente nada. Você não sabe o que está fazendo aqui. Eu já falei para você que a escravidão estava prevista em lei. E assim como lei se modifica conforme o tempo e a cultura. Se você está aqui agora, você vindo da quebrada, é porque houve possibilidade de acesso de muita gente pobre, como você e eu pudéssemos estar aqui. Você só está aqui porque houve uma perfuração dessa bolha. Se coloque no seu lugar”. Depois da polêmica, Douglas assumiu publicamente sua homossexualidade, como se isso legitimasse seu preconceito. Na verdade, isso revela um problema ainda maior. Mesmo fazendo parte de um grupo oprimido, alguns acabam exercendo e absorvendo os comportamentos de opressão que recebem, para se sentirem aceitos. Muitos LGBTQIs absorvem os comportamentos heterocisnormativos exercendo posturas preconceituosas, incentivados pelo sistema patriarcal opressor que manipula os/as oprimidos/as para manter sua lógica de dominação e poder. 

No caso de Tiffany, é importante ressaltar que algumas argumentações de que mulheres trans seriam biologicamente privilegiadas em times femininos advém não só de uma transfobia mascarada pelo discurso genético, como também de muito machismo.

Não querer entender que uma mulher trans é uma mulher, usando o “determinismo biológico” para não aceitar a identidade de gênero das pessoas trasns é uma maneira de querer se sentir superior e impedir esse grupo de viver socialmente. Vejamos os fatos: atletas cisgêneros não são questionados por terem vantagens em algumas características físicas em relação a outros atletas. Por exemplo, o nadador Michael Phelps tem uma envergadura de braço que é maior do que sua altura, o que faz com que as suas braçadas sejam maiores do que a dos demais atletas; o corredor Usain Bolt tem pernas maiores do que a média dos outros velocistas, conseguindo dar passos 20cm maiores do que os outros; a genética de vários atletas do basquete, como o ala Kawhi Leonard, faz com que eles tenham mãos maiores do que as médias dos jogadores e por isso tenham maior facilidade na condução das bolas; e no vôlei, existem alguns casos famosos, como o poder de salto da cubana Mireya Ruiz que media cerca de 1,75m e conseguia alcançar 3,35m de ataque, há 30 anos.

Estranho que nesses casos nunca há discussão sobre as questões biológicas, mas quando é uma pessoa trans que vence, o questionamento ocorre, mesmo que os dados demonstrem que Tiffany tem desempenho bem menor que tantas outras jogadoras cisgêneras.

E aí vem também o machismo, já que no caso da Tiffany fica evidente como ainda existe um pensamento hegemônico, errôneo, de que os homens cis têm mais capacidade física do que as mulheres cis. É a reprodução da ideia de que as mulheres sempre serão mais fracas e menos capazes. Aceitar esse pensamento sem analisar o processo histórico patriarcal pode ter influenciado até mesmo nas condições físicas das mulheres, sem contar em relação aos direitos.

Aceitar pessoas trans nesses espaços, principalmente no esporte, que também tem uma função importante de inclusão social, é muito importante para a diminuição da transfobia, ajudando a desconstruir o preconceito machista de superioridade física.

Perceba, leitor, que os casos citados aqui têm uma ligação: a enorme transfobia que existe no país.

De certa forma, estes acontecimentos, além de estarem claramente interligados, revelam uma triste realidade sobre o povo brasileiro: muitos cidadãos se definem mais por seus órgão genitais do que por seu caráter e comportamento. Isso revela enorme falta de sentimento fraterno e empatia consigo mesmo e com outros seres humanos. Este comportamento é nocivo por dar espaço para que pessoas corruptas, perversas e mau caráter sejam vistas como “mais humanas” do que pessoas trans honestas, trabalhadoras e focadas no bem comum.

Este tipo de raciocínio faz com que o Brasil seja o país que mais mata LGBTs. No caso das pessoas trans, os homicídios no país representam quase 50% de todos os assassinatos no mundo. Outros dados alarmantes:  a assustadora expectativa de vida da população trans de 35 anos; e 90% das mulheres trans e travestis estão compulsoriamente na prostituição. Essas terríveis estatísticas revelam a transfobia generalizada em nossa sociedade.

As pessoas estavam acostumadas a perceber a nossa existência somente à noite, nas esquinas, vivendo à margem da sociedade. Agora que estamos ocupando alguns espaços, como no esporte, na políticas, nas universidades, estamos incomodando muita gente que usa de desculpimos moralistas e biológicos para tentar disfarçar o seu ódio. 

As instituições e a sociedade em geral precisam repensar suas visões a respeito do que é ser homem e ser mulher. Necessitam sair de sofismas que legitimaram posturas de escravidão no passado e que hoje se mascaram em destinos biológicos. Assim, saindo deste mar de preconceito e perversidade, viveremos numa sociedade com menos desigualdades, violências de gênero e mais oportunidades para todos. Essas caixinhas “rosa e azul” em que somos colocadas ao nascer são recheadas de regras e imposições perversas que somente contribuem para manter as desigualdades e comportamentos machistas e LGBTfóbicos. Precisamos urgentemente acabar com essas ideias criminosas, que são transformadas em normas (baseadas  em discursos que nos afastam da humanidade e que nos colocam abaixo dos animais) e enxergar e respeitar as pessoas como elas realmente são. Somente assim vamos viver numa sociedade igualitária e justa.




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