14/03/2019 as 10:04

Quem mandou executar Marielle Franco?

Em 14 de março de 2018, Marielle Franco foi brutalmente assassinada, um ano depois ainda não sabemos quem foram os mandantes do crime.

Consciência e (R)Existência

Diversidade e Direitos Humanos
Por Linda Brasil.
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Marielle Franco é um símbolo de luta e resistência, mulher negra, bissexual, feminista, socióloga, política e defensora dos direitos humanos. Nasceu em 27 de julho de 1979 na favela da Maré, no Rio de Janeiro. Foi eleita em 2016 a quinta vereadora mais bem votada do Rio pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), com o lema “Eu sou porque nós somos”. Marielle lutava por várias pautas da população negra e das pessoas LGBTQs, e criticava essa velha política sempre dominada por homens brancos e heterossexuais.

No dia 14 de março de 2018, ela e seu motorista, Anderson Gomes, foram covardemente assassinados a tiros depois que ela saiu de um debate com outras mulheres negras no centro do Rio de Janeiro.

Em 2002, Marielle ingressou no Curso de Ciências Sociais com uma bolsa de estudos integral pelo Programa Universidade para Todos (Prouni) na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Depois de graduada, fez mestrado em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF), onde defendeu a dissertação intitulada "UPP - A redução da favela a três letras: uma análise da política de segurança pública do Estado do Rio de Janeiro". Ela era casada com Mônica Benício e tinha uma filha de 20 anos.

Ela foi assessora parlamentar por dez ano nos mandatos de Marcelo Freixo, quando ele era Deputado Estadual pelo Rio e nesse período ela também foi coordenadora da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da ALERJ. Na sua primeira disputa eleitoral, em 2016, Marielle foi eleita vereadora na capital fluminense, com mais de 46 mil votos, pela coligação “Mudar é possível”, formada pelo PSOL e pelo PCB.

Como vereadora, Marielle realizava um mandato coletivo, em que suas propostas e projetos eram discutidos de forma democrática com a sociedade. A sua assessoria era composta por 80% de mulheres, empoderadas e conscientes da luta e resistência - uma nova forma de fazer política, trabalhando a favor dos direitos dos/as oprimidos/as e dos/as mais desfavorecidos/as economicamente, combatendo e denunciando as explorações do sistema capitalista patriarcal e dessa ‘velha política’ recheada de parlamentares que estão mais preocupados com seus interesses pessoais, que favorecem grandes empresários financiadores de suas campanhas eleitorais.  

Marielle também presidia a Comissão de Defesa da Mulher na Câmara Municipal do Rio e em 28 de fevereiro de 2018, quinze dias antes de sua execução, foi escolhida relatora de uma comissão composta por quatro pessoas, que tinha como objetivo monitorar a intervenção federal no Rio de Janeiro. Em pouco mais de um ano (quinze meses de mandato) redigiu e firmou dezesseis projetos de lei, dois dos quais foram aprovados: um que regulou o serviço de mototáxi e a Lei das Casas de Parto, visando a construção de espaços com o objetivo de realizar partos normais. Suas intervenções legislativas buscavam garantir apoio aos direitos das mulheres, à população LGBT, aos negros e aos moradores das favelas.

Desde o dia de sua morte, começou uma onda de protestos em todo o Brasil exigindo a solução do caso de Marielle. Também foram diversas as reações internacionais. Mas até agora não temos uma resposta concreta. A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, em julho de 2018, aprovou a Lei 8054/2018 que consolidou 14 de março no Calendário Oficial do Estado do Rio de Janeiro como o "Dia Marielle Franco – Dia de Luta contra o genocídio da Mulher Negra".

No último dia 12 de março, dois dias antes de completar um ano da execução, a Polícia Civil prendeu um Militar reformado, Ronnier Lessa, e um PM, Élcio de Queiroz, acusados de terem assassinado a vereadora e seu motorista. Além disso, outras investigações já haviam apontado outros envolvidos no caso - um deles tem ligação com Flávio Bolsonaro, filho do atual presidente do Brasil. Agora, com essa nova linha de investigação, identificou-se que Lessa - o suspeito de ter atirado em Marielle - reside no mesmo condomínio residencial em que Bolsonaro tem uma casa. Também foi revelado que um dos filhos de Bolsonaro (Renan) já teria namorado a filha do assassino. Será mera coincidência?

É óbvio que tem muita podridão relacionada com a execução de Marielle Franco, pois ela estava incomodando muito, por ser uma mulher forte, corajosa e sem medo de falar certas verdades e de apontar as feridas de uma política adoecida. No caso do Rio, além das corrupções, aparentemente muitos políticos estão envolvidos com a milícia e com o crime organizado. Como disse Marcelo Freixo, deputado federal do PSOL do Rio, quem matou Marielle não foi quem atirou o gatilho, tem muita gente grande envolvida nessa terrível execução.

Em sua última fala na Câmara Municipal de Vereadores do Rio, no dia 08/03/2018, Marielle Franco fez um discurso muito empolgante e corajoso. De forma bem incisiva, quando um dos presentes queria interromper sua fala, questionou: “Não vem me interromper agora, né? Homens fazendo homice....As rosas da resistência nascem do asfalto! Punho fechado falando do nosso lugar como forma de resistência! Vai ter de aturar mulher negra, trans, lésbica ocupando esses espaços sim”.

Concluo com uma frase de outra mulher negra e defensora dos direitos humanos, Audre Lorde, citada por Marielle no evento “Jovens Negras Movendo Estruturas” momentos antes de sua execução: “Eu não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”.

Mataram Marielle, mas seu legado vai continuar para sempre. Marielle Vive! Não irão nos calar!




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