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27/10/2018 as 18:00

"Uma campanha feita com voluntários", diz Linda Brasil, transfeminista com votação recorde em Sergipe

Filiada ao PSOL, ela teve mais de dez mil votos em disputa para deputada estadual, e mesmo sem vencer, fez história pelo seu partido

Foto: (Facebook/Reprodução).<?php echo $paginatitulo ?>

Graduada em Letras pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) ativista LGBT, mestranda em Educação pela mesma universidade, ativista LGBT e transfeminista, Linda Brasil foi sem dúvidas, uma das maiores supressas do pleito eleitoral sergipano, no primeiro turno.

Com 45 anos, ela tem uma trajetória de vida marcada por muita luta e resistência, e disputando pela segunda vez uma eleição política ela conseguiu um feito histórico para a população LGBT em Sergipe. Conseguiu mais de 10.000 votos na disputa para o cargo de deputada estadual e não fosse uma estrutura modesta que teve à sua disposição certamente, estria entre os 24 parlamentares eleitos pelos sergipanos.

Em uma conversa com o jornalismo do Alô, ela que é filiada ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) falou sobre como se desenvolveu a sua campanha neste ano, os desafios futuros na carreira política, suas motivações enquanto ativista e também sobre o cenário da política nacional, que pode ter a partir de 2019, Jair Bolsonaro como presidente da República, e como sua eleição pode influenciar na defesa dos direitos em favor da diversidade sexual.

Confira a entrevista completa a seguir:

Portal Alô News - (A.N.): Linda Brasil, esta é a segunda vez que você concorre em um pleito eleitoral. Em 2014, sua candidatura a vereadora conseguiu 2.308 votos e ficou próxima de se sagrar vitoriosa; neste ano, na disputa para a Assembleia Legislativa você também teve uma votação expressiva, obtendo 10.107 votos, em uma campanha com pautas voltadas, principalmente, à defesa da população LGBT Na sua opinião, o que falta para enfim conseguir ganhar uma eleição?

Linda Brasil - (L.B.): Realmente, nas duas eleições em que concorri, foram votações muito expressivas, e nas duas em me senti vitoriosa porque, pela primeira vez me colocando, em um partido que não tem ainda uma visibilidade muito grande. A gente não tem ainda nenhum parlamentar eleito, mas foi uma campanha muito linda, com o apoio de várias pessoas, eu me senti vitoriosa, independentemente do resultado, pois tem a questão da legenda, no entanto, eu acho na próxima eleição a gente vai conseguir sim se eleger, por que também é uma campanha coletiva. A gente faz parte de um coletivo, de uma organização dentro do PSOL, que acredita no meu trabalho, na minha força e eu acho que cada vez mais as pessoas vão contribuir nesse processo, já que não recebemos doações de empresários, de pessoas que financiam campanhas para depois quererem benefícios em troca; então é uma campanha feita com voluntários, e na próxima muito mais pessoas vão se engajar, e com certeza nós iremos sair vitoriosos.

(A.N.): Você é filiada a um partido de esquerda, que ainda não possui tanta força no estado, apesar de alguns de seus membros, como Mario Leony e Sônia Meire, serem bastante ativos politicamente. Não acha que se migrasse para uma legenda de esquerda mais robusta, como o PT ou o PC do B seu ativismo ganharia ainda mais evidência, já que estaria dentro de uma partido muito reconhecidos no estado? Ou acha que seu nome não seria bem aceito nessas agremiações?

(L.B.): Não, eu jamais vou fazer isso. Na verdade, antes de eu entrar na Universidade Federal de Sergipe, eu tinha ojeriza de política, porque a minha referência é mais do interior, sou de Santa Rosa de Lima, e a referência que eu tinha de política era essa de jogatina que existe no processo eleitoral. Quando eu entrei na universidade comecei a conhecer militantes feministas, estudantis, que militavam no PSOL, que era pessoas com propósito, que iam às ruas denunciar os ataques do governo, eu percebi uma nova forma de fazer política, conheci pessoas muito importantes nesse processo que são filiadas ao PSOL, e por isso que eu acabei me filiando, pois, acredito em um partido revolucionário como ele, que está aí enfrentando essa velha política. E mesmo que eu não me eleja, jamais eu vou migrar para outro partido por causa de eleição, porque, ainda que eu queira ser eleita, o único motivo que me levou a ser candidata é para que eu possa usar esse processo de eleição para conscientizar as pessoas da importância do voto; isso é mais importante do que a eleição em si.     

(A.N.):  Considera que a sua candidatura a deputada estadual ficou restrita a alguns nichos, e isso pode ter impedido de ter conseguido mais votos, que poderiam lhe levar à vitória eleitoral?

(L.B.):  Jamais. Eu tive votos em todos os municípios do estado de Sergipe. A grande maioria foi aqui em Aracaju, porque eu faço meu trabalho e militância aqui. É muito difícil concorrer com os currais eleitorais de interior, que a gente sabe que tem compra de voto, tem o uso da máquina pública para pressionar os eleitores, principalmente nas cidades onde a maioria da população trabalha para a prefeitura. Se você analisar as candidaturas das pessoas eleitas, o que decidiu foi o interior, a maioria delas perdeu para mim aqui em Aracaju, pelo fato de eu não ter muita estrutura financeira, pois tive pouco investimento e poucas doação e isso dificultou muito a minha ida aso interiores. Mas, estou me sentido feliz e vitoriosa, fui a décima colocada aqui em Aracaju, onde eu faço trabalho de enfrentamento e não é limitado a nenhum nicho, nem LGBT ou feminista. Sou militante feminista e LGBT, mas eu tive o apoio da juventude e da população.

(A.N.):  Você já tem em mente se continuará, nas próximas eleições, se candidatando a algum cargo político?

(L.B.): Sim, a gente tem uma grande possibilidade, com 6.555 votos aqui. Quase o triplo da quantidade de votos que eu tive para vereadora em 2016, eu tenho certeza que temos uma grande possibilidade de ser eleita na próxima, isso vai depender da esfera do partido, mas provavelmente sim, estarei me colocando para vereadora. A gente vai conversar internamente com o partido, mas com certeza precisamos ocupar. Pessoas como eu LGBTs, principalmente as mulheres trans, que nunca ocuparam esses espaços na sociedade, é muito importante para nós fazer o enfrentamento desses retrocessos e ideias irracionais que cada vez mais estão avançando no Brasil, em Sergipe, e consequentemente aqui em Aracaju, também.

(A.N.):  Apesar do pouco tempo de TV e de poucos recursos financeiros disponíveis, o PSOL se destacou nas eleições estaduais. Além da sua votação, o Delegado Mário Leony, ligado às causas dos direitos humanos e também à população LGBT conseguiu um ótimo resultado, ao obter 9.396 votos e ficar entre os 20 candidatos mais bem votados. Qual a conclusão que o partido e você tira das disputa deste ano, e desses npumeros, em específico?

(L.B.): Realmente, foi a primeira vez. Porque uma coisa é cargo majoritário, outra coisa é cargo proporcional. A minha candidatura e a de Mário foram as duas que mais tiveram votos em candidaturas proporcionais, e isso foi muito significativo. A gente fez uma campanha muito limpa, com muito amor, com muitas cores e diversidade. Uma campanha que foi abraçada por várias pessoas, não só aqui em Aracaju, mas em todo Sergipe. Mário viajou mais do que eu para o interior; eu por causa de algumas limitações financeiras e outras atividades na capital, acabei ficando por aqui. Mas, foi um resultado muito expressivo. A gente está feliz pelo apoio da juventude e dos outros setores que abraçaram nossa candidatura.              

(A.N.):  Hoje, após terminar a graduação em Letras, você é mestranda em Educação pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). Na sua opinião, qual deve ser o papel da educação transmitida nas escolas para a edificação de uma sociedade tolerante e que seja capaz de aceitar o espaço de legitimidade da população LGBT.

(L.B.): Desde quando eu entrei na universidade, que eu faço enfrentamento e a conscientização das pessoas sobre o respeito à diversidade, às questões de gênero que são fundamentais nessa situação dos estudos de gênero, pois estão dizendo que isso é uma ideologia de gênero, quando na verdade, ideologia é o que existe já, de nos colocar em caixinhas e nos aprisionar nelas, impondo regras e comportamentos. O que agente luta é pelo direito para as pessoas se relacionarem da forma que se sentirem mais felizes e se identificar de acordo com os padrões de gênero com os quais a pessoa se sente mais feliz, e quebrar essas barreiras dessas caixinhas que violentam e que estimulam agressivos das caixinhas azuis dos meninos, pois estes tiveram uma educação muito motivadora de comportamentos de violência. Por isso, que 96% da população carcerária é masculina, por causas desses papéis de gêneros que são impostos, então a discussão de gênero é importantíssima para a gente combater a violência, para termos uma sociedade mais igualitária, e não, como eles dizem que a gente quer induzir a sexualidade ou identidade de gênero das pessoas. Não, a gente quer falar sobre essa diversidade para que o jovem cresça sabendo que existem outras formas de se relacionar e de se identificar socialmente, que essas pessoas merecem respeito como qualquer outra.

(A.N.):  Receia que com a eleição do presidenciável Jair Bolsonaro à presidencia da República, e temas relacionados à diversidade sexual passem a ser boicotados em centro de ensino, não só do ensino fundamental e médio, mas até no nível superior?

(L.B.): Com certeza, a eleição desse candidato representa um retrocesso nos direitos individuais. Já ficou bem clara a postura dele, principalmente essa perseguição ao que ele diz que é um kit gay. Isso é uma forma dele perseguir a comunidade LGBT. Com certeza que teremos um retrocesso, mas a gente sempre vai estar lutando porque as pessoas que estudam gênero e diversidade sexual acreditam na importância destes debates para conscientizar melhor os jovens e a sociedade a respeito à diversidade.  A gente não só vai ter o retrocesso nessas questões, mas também em todos os direitos individuais dos brasileiros e das brasileiras. Então, espero que o pior não aconteça, pois, a democracia no Brasil e os direitos humanos estarão ameaçados.

(A.N.):  Acredita que a vitória dele significará um período de retrocesso no campo de políticas de defesa da população LGBT, ou acha que o discurso dele só esteve tão radicalizado durante os últimos anos para ganhar adeptos e força eleitoral?

(L.B.):  Eu acredito sim que a gente vai ter retrocessos, perdas de direitos, e não só isso, mas também a nossa sobrevivência está ameaçada, pois o ódio que ele está instigando pode provocar uma onda e fazer crescer o número de assassinatos das pessoas trans e LGBT. O Brasil já é o país que mais mata LGBT no mundo, e se ele ganhar com certeza esses homicídios vão aumentar cada vez mais. É um perigo não só para a comunidade LGBT, mas para todas as ditas e todos os movimentos sociais que lutam para que a gente possa viver em uma sociedade na qual a gente possa viver com mais respeito e igualdade. E não, eu acho que realmente tem muitas pessoas, que com esse discurso dele, estão mostrando quem realmente são, porque ele não se diz um preconceituoso; ele simplesmente ataca dizendo que nós queremos privilégios, destruir a família tradicional brasileira e induzir a sexualidade das crianças. Ele distorce toda a realidade pra poder coagir e persuadir os eleitores, ou seja, ele usa de notícias falsas como a questão do kit gay para ganhar voto. Isso é um crime, ele já deveria ter tido a sua candidatura impugnada, não só por esse caso, mas também por outras mentiras que ele divulga para obter eleitores. Vai ser lastimável e terrível a gente viver em um governo de uma pessoa tão desequilibrada e tão odiosa, que representa um perigo à democracia do Brasil.




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